REDAÇÃO FLY BY NIGHT

Entrevista exclusiva com Renato Ratier

Mercado, tendências, metas pessoais, novos caminhos do D-Edge e o futuro do Warung em pauta!

13/04/2017 | 13:20 - por William Fakeiti
Entrevista exclusiva com Renato Ratier

Pioneiro da cena, com mais de 20 anos de carreira, uma das personalidades mais importantes da música eletrônica underground no Brasil e no mundo. Referência em tudo que faz, com uma reputação louvável, Ratier é empresário, DJ, estilista, designer e visionário. Nesse final de semana ele comemorou os 17 anos do logoD-Edge
São Paulo - SP
D-Edge
e marcou presença em Curitiba, no Warung Day Festival - onde também é sócio.

Tive o prazer de entrevistar essa figura que é uma das mais representativas do meio. Como fã, confesso que sempre o idealizei como uma pessoa super bacana e inteligente, porém ele se superou naturalmente, como em tudo o que ele faz.

Fiquem então com bate-papo que tive com logoRenato Ratier
E-Music
Renato Ratier
, nos bastidores WDF. Espero que gostem! :)

- Mais uma vez você repetiu o pódio do RMC. Não só de melhor festival (com o WDF), mas também em várias categorias nas quais os ganhadores estão direta ou indiretamente ligados à você. Estando na sua posição, como você percebe a evolução do mercado de música eletrônica no Brasil - diante das dificuldades econômicas atuais?
Nesses últimos anos eu acho que, enfim... Todo mundo que trabalha nesse mercado trabalha com muita dedicação porque não é fácil trabalhar tanto com eventos, com música avançada é sempre mais difícil do que com música eletrônica popular/comercial. Principalmente, realizar eventos nesses últimos anos, a crise afetou muito, houve uma diminuição muito grande do investimento em patrocínios e o câmbio também foi um fator. No momento que estávamos com muitos contratos ouve aquela alta do dólar você tem ainda que manter os clientes satisfeitos.

- Se adequar?
Na verdade, nesse tempo não tem como se adequar, pois você já está com os contratos feitos então foi bem difícil, mas vamos ver, eu espero que a gente passe logo, é uma luta constante, no Brasil existe uma dificuldade muito grande com a legislação, com os impostos, com a gente que faz - que trabalha nesse mercado... É guerreiro, viu cara, porque não é fácil principalmente para quem faz tudo certinho no Brasil! É complicado, mas a gente trabalha.

- E, apesar da crise, apesar de tudo, você tem bastante sucesso nos seus projetos. Isso você atribui a que?
A muita dedicação! A você realmente pensar e procurar fazer alguma coisa diferenciada, apresentar algo diferenciado e procurar fazer com o máximo de qualidade possível - que é uma coisa perigosa porque: se você, quando está no momento de crise, começar a diminuir o investimento das coisas, cortar e abaixar a qualidade em tudo, aí que é o grande perigo! Mas, quando você continua, você fica com a credibilidade e a um posto que você consegue se manter. Na verdade, nesses momentos que você vai à frente.

- ... e você sempre teve bastante coragem de sair à frente de todo mundo.
Principalmente desde a programação. No dia a dia a gente sempre tem artistas novos, ainda desconhecidos. A gente não trabalha só em grandes nomes, sempre em talentos que estão despontando que estão começando, esse é o mais legal, descobrir coisas, tanto nacional quanto internacional. - Como a logoBlancah
E-Music
Blancah
?
Ela e diversos outros, assim, que têm talento. Dentro da agência a gente não fala "vamos pegar os que mais vendem". Nós não temos essa mentalidade, tem que acreditar no artista e saber desenvolver a carreira dele.

- Música, moda, arte, gastronomia, existem vários segmentos que você está envolvido e todos os segmentos juntos criam um life style que está diretamente ligado a você. Você tem consciência disso, isso tudo foi arquitetado ou foi acontecendo naturalmente?
Não, não tenho uma coisa assim ... "Vou fazer dessa forma para obter o sucesso o chegar em tal ponto" Não. São coisas que são pertinentes e que eu tenho prazer na minha vida e que você vai agregando, na verdade tudo isso que eu venho fazendo eu já fazia a algum tempo, já vinha com esse projeto a bastante tempo, de fazer, de agregar tudo isso, de trabalhar nessas frentes todas diferentes e fazer com que elas conversem. Então isso agrega... Por exemplo, lá no Rio que a gente tá com um espaço que vai abrir, que haverá galeria de artes, estúdio de música, loja de discos, café, livraria e tem um espaço que você vai fazer lançamento de livros, exposição, fotografia, desfile... Tudo isso... Então as pessoas que estão ligadas às outras expressões de arte, trocar essa informação acho que vai ser muito enriquecedor! Vai trazer muitas pessoas interessantes para dentro da música eletrônica e influenciar outras coisas também, influenciar no life style, no circuito de cinema, na TV entre outros. Essa é a minha meta!

BOSSA
Restaurante e estúdio Bossa.

- Nós percebemos muitas referências no que você faz de Berlim, por exemplo, da moda e no design e nos projetos que você está devolvendo... Quando eu morei lá, há 3 anos, eu e meus amigos sempre comentamos que tínhamos que nos vestir de logoRenato Ratier
E-Music
Renato Ratier
para poder ser aceito no Berghain…

RATIER

Loja Ratier Clothing.

E vocês não foram barrados?
- Não, muito pelo contrário.

É complicado. Ao mesmo tempo que eu gosto do Berghain e do Panorama, mas com essa política fica meio difícil, quantas pessoas estão viajando - não são de lá - e gostam da música. Chegam lá e têm esse tipo de experiência ruim, eu acho meio negativo. Até entendo, de um lado, porque eles trabalham e querem fazer isso, porém acho uma política meio complicada.

- E o Holzmarkt que é um empreendimento, mais ou menos, como uma aldeia cultural. Esse projeto inspirou os projetos seus aqui no Brasil?
A verdade é que eu comprei um terreno grande em Campo Grande para fazer isso e já estava com planos para fazer o mesmo em São Paulo. Procurei terreno em São Paulo, mas acabei fazendo no Rio. Aí vieram uns alemães aqui, começaram trocar ideia comigo e me disseram: "meu, tem um grupo de alemães querendo fazer isso em Berlim". Aí eu fui lá e fiquei sócio. Foi uma coincidência sim, uma sinergia!

Holzmarkt
Abaixo e à direita: terreno onde está sendo desenvolvido o Holzmarkt.

- Qual a sua relação com Berlim?
Eu gosto muito de Berlim, mas eu procuro não estar muito assim, ficcionado. Eu já fui de estar em Berlim, houve uma época que eu estava indo quase todo mês, pelo menos nove vezes no ano eu fui. Mas cara... eu não sei, quando se cria um hype em cima de uma história só, ela começa a ter os seus problemas também. Eu gosto, mas também têm vários outros lugares que me inspiram. Porém Berlim, com certeza, é uma das minhas cidades favoritas.


- Para alguém que trabalha tanto como você, lançou o Black Belt e o Youniverse em um curto espaço de tempo.
Foi em 2 anos.

- Você espera lançar novidades agora?
Agora agora não. Não comecei trabalhar ainda, sempre que você vai começar você fica 6 meses trabalhando. Eu mudei, agora que o estúdio do Bossa tá redondo. Mas eu já tô com projeto, já. Isso que é legal, eu fiz esse álbum inspirado em coisas meio espaciais e agora vi um monte de gente fazendo coisas parecidas. Por exemplo, o logoJeff Mills
E-Music
Jeff Mills
agora está com um projeto intitulado "Planets". Quer dizer, lá atrás...E nesse mesmo tempo foram acontecendo algumas coisas relacionadas e quando tive essa ideia demorou um pouco mais para sair o álbum. Mas isso que eu acho legal, por exemplo a coisa do Black Belt e você acaba tendo essa coisa da visão - de antecipar algumas tendências. Quando eu fiz o Black Belt, em cima da cultura japonesa, logo depois o logoRichie Hawtin
E-Music
Richie Hawtin
foi criar o “Sake”, aquela referência do Japão. Isso são coisas do inconsciente coletivo, coisas que inspiram no mundo, tanto inspiram você, quanto outras pessoas e essa do Youniverse... Começaram a sair várias coisas meio que dessa onda aí. É bom porque eu vi que eu não estou tão errado… (risos), que tô fazendo coisas que têm sincronicidade com a consciência coletiva.


- O que a gente pode esperar pro futuro do logoWarung Beach Club
Itajaí - SC
Warung Beach Club
e do logoD-Edge
São Paulo - SP
D-Edge
?

Então... para o Warung a gente tá procurando outro lugar porque daqui um tempo a gente tem que se mudar e já tem outro projeto para onde é o local do Warung agora.

Construção de área residencial, próximo ao Warung.

O logoD-Edge
São Paulo - SP
D-Edge
é abrir no Rio, a meta é agora em junho, tem que ser rápido porque faz muito tempo. É realmente grande e complexa a história toda, não é simplesmente um club. Eu acredito que o logoD-Edge RJ
Rio de Janeiro - RJ
D-Edge RJ
vai ser um parâmetro, vai apontar para um novo modelo de club - que o mundo vai olhar como referência, esse modelo. É isso, agora à curto prazo tem outros projetos, mas primeiro eu tenho que fazer o que já está em andamento.

D-EDGE RJ
Fachada do D-EDGE Rio - Underconstruction. Foto: Patrick Gomes.

- O que você vê no horizonte, de onde você está, da cena eletrônica brasileira?
Eu acho que assim... A gente é step-by-step, a construção de tudo é feita a cada dia. É trabalho a cada ponto pequeno, trabalhos feitos, programação séria e constante. Trabalho contínuo que faz a diferença, procurando sempre fazer o máximo e levando o máximo de qualidade, de verdade, de cultura e de arte para as pessoas.

Ratier no Pedreira Stage do Warung Day Festival 2017
Ratier no Pedreira Stage - Warung Day Festival. Foto: GuRemor.

Após o término da maratona do final de semana, Renato fez uma postagem de agradecimento em sua página no Facebook.

Eu apenas gostaria de expressar aqui o meu agradecimento a todos pelo último final de semana. Sou extremamente grato por...

Publicado por Renato Ratier em Terça, 11 de abril de 2017


Foto de capa: GuRemor.

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